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Angola - Que recomposições e reorientações? PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

ImageCinco anos depois do fim da guerra, Angola está numa fase de mudança. Mudanca tão presente que começa agora a fazer parte de várias investigações de cariz académico, que trazem a debate o que era Angola, no que se tornou e no que pode vir a ser.

Kinguilas, kupapatas e candongueiros, a economia informal em análise

Foi este o tema principal desta conferencia internacional, onde um grupo de investigadores do Centro de Estudos Africanos (CEA) do Instituto Superior das Cieências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) organizou um debate interdisciplinar, baseado na sua experiência com a Angola contemporãnea. A iniciativa foi considerada pela Presidência Portuguesa da Uniäo Europeia 2007 como um evento de «interesse científico» e apoiada no quadro do programa «Ciência 2007 UE», gerido pela Fundação para a Ciencia e Tecnologia.

0 evento internacional dividiu-se entäo na vertente económica, social e política do desenvolvimento de Angola e compreendia um vasto painel de oradores, de universidades de todo o mundo. Infelizmente, o plano sofreu varias alterações e muitos dos oradores acabaram por nào poder comparecer, apesar de a organizacão ter dado o seu melhor para «tapar os buracos». 0 primeiro dia foi dedicado à economia e contou com a presenca de vários académicos ligados ao assunto, entre os quais se destacam: Ana Maria Duarte, da Universidade de Londres, Inglaterra, António Tomás, da Universidade de Columbia, Nova lorque, e Carlos Lopes, do Centro de Estudos Africanos do ISCTE.

Meios de transporte em Benguela

ImageOs delegados discutiram o desenvolvimento económico do país, analisando elementos muito especificos da mesma. Ana Maria Duarte analisou «0 sistema de transportes na província de Benguela e os seus impactos económicos e sociais». Assim, a doutoranda abordou a actividade de prestacäo de servicos ligada aos meios de transporte da região, centrando-se em vários elementos: os candongueiros, os kupapatas, as trotinetes de madeira e o sistema ferroviário que atravessa Benguela. Segundo Ana Maria Duarte, estas actividades, se bem que consideradas como emprego independente ou informal, säo «altamente organizadas» e por vezes fazem até parte de «grupos de pequenos empresários, que asseguram a circulacäo de pessoas e materiais ao longo de toda a província».

0 caminho-de-ferro da regiào teve um impacto enorme onde se deve notar as consequências a nível da informacào e do comércio, com a criacäo de mercados ao pé das estações. Já as motorizadas (kupapatas) e os táxis (kandongueiros) também tiveram algum impacto a nível da circulacäo e da criação de empregos, enquanto que as trotinetes de madeira mostraram-se uma grande ajuda no que diz respeito à circulacào de mercadorias, que de outra forma, teria que ser feita a pé.

ImageDólares e Kwanzas 
 
António Tomas, com a sua apresentação «Dólar e Kwanza: reflexões sobre o bi-monetarismo em Angola», discutiu a venda de dólares em Angola, formal e informalmente (através das kinguilas) e o impacto que esta teve na economia do pals. As kinguilas, especificamente, têm uma importância fulcral neste bi-monetarismo, já que «funcionam como uma espécie de barómetro da vida política e económica de Angola», denominando-as mesmo de «regularizadoras da economia nacional». Assim, António Tomás analisou o papel da conversão de moeda, que explica ser fundamental num país como Angola, que depende quase exclusivamente de exportações, principalmente com «a subida do preço do petróleo e o empréstimo chinês, que tem trazido divisas para o país».

António Tomás salientou também o desaparecimento contínuo das Kinguilas, que explica pelo facto de o bi-monetarismo de Angola permitir «ter uma conta bancária em dois numerários», e também pelo facto de o governo estar a implementar alterações na sua política económica. Segundo o investigador, tudo isto ajuda ao fortalecimento do Kwanza, mais escasso, visto que a maioria das transacções são efectuadas em dólares.

Política económica

Por sua vez, Carlos Lopes apresentou «Políticas económicas, mecanismos de regulação e informalização da economia em Angola». 0 representante do Centro de Estudos Africanos analisou «o crescimento da economia informal em Angola e a sua generalização», tentando com isso entender «se estas políticas estão afectadas pela sociedade ou se estão relacionadas com a natureza do regime e sistema que se foi construindo em Angola». Para isso, Carlos Lopes construiu uma cronologia de acontecimentos ligados à economia em Angola, que interligou com acontecimentos políticos, procurando uma lógica que explicasse as escolhas económicas feitas no país. Para além disso, analisou também os registos de economia informal presentes em Angola, discutindo o papel das «Kinguilas» e dos «Doleiros».

0 investigador analisou o trabalho informal em Angola e a economia de renda/rendeiros, destacando as economias petrolíferas e enquadrando esta análise na evolucäo político-económica do país de 1975 ao presente. Para alèm disso, Carlos Lopes analisou o mercado cambial desde 1975, alegando que «o mercado paralelo de divisas é um dos elementos onde se notou uma grande mudança, como o bi-monetarismo. 0 acesso a divisas, que antes era limitado, é agora aberto, dando uma maior importância ao mercado paralelo».

ImageEncerramento

0 segundo dia da conferência foi dedicado aos aspectos sociais, concentrando-se na reforma de governação, reconstrução nacional da sociedade Angolana do pós-guerra e as transformações da sociedade urbana assim como a situação das sociedades rurais. Já o dia de encerramento focou os aspectos políticos do desenvolvimento do país, centrando-se na progressão política desde o fim da guerra civil, a inserção no contexto regional e o processo eleitoral, assim como a transição das dinâmicas locais, a descentralização e a administração local.

Concluiu-se assim uma «dupla constatação» de mudança e do aumento da investigação em e sobre Angola, através de um conjunto de investigações aprofundadas sobre as várias áreas de desenvolvimento do país, no ano em que se notou um boom económico, merecedor de destaque.

Fonte: África Today, 24 de Janeiro de 2008